19.9.16

Cavalos em movimento [na Enfermaria 6]

Uma vez disse que gostava de entrar em Lisboa a cavalo, que partia de muito longe, nem sabe de onde, e que ia por aí fora comendo terras e terras a caminho do cotovelo do mar, desse recosto de terra onde, diz, bate e bate o mar, e entrar na cidade montado no seu cavalo com ar fresco e sorriso montado, e a malta toda a ver, todo o mundo na rua com metais coloridos e braços altos tipo estátuas de vidro, mas um vidro diferente, que não sabe bem explicar, e entra na cidade e vai por aí fora, desfaz as ruas que muitos tempos antes, muitos anos antes palmilhara sem freio, quando ali morava ou passava perto ou simplesmente se imaginava pisando aqueles passeios, diz ele que se vê entrar na cidade montado no cavalo e que depois chega à porta de casa e diz já cá estou, e entra em casa montado no cavalo, tira qualquer coisa da mochila e arranca em sentido contrário, retomando o trilho que o levara até ali. [...]

Texto completo na Enfermaria 6

14.6.16

Um mar de muros [na Enfermaria 6]

Queria recordar com toda a força de que fosse capaz. Repor aqui à frente o impossível rigor de uma imagem tão parada, tão feita num certo dia, numa parte pequena da hora, de passagem, passando. Há dias vi de longe o mar, recortado azul preto entre montes e casas brancas. Foi de longe, mas não tanto. Isto é, nunca fui, nunca estive ali, e vi o mar como se vê um desconhecido cruzando connosco a rua, todos os dias, e lhe percebemos um traço do rosto, depois outro. Muitas casas, vidros e pedras, ferros, papel. Mas dava para perceber aquela mancha esbatida lá longe, num escuro diferente daquele que a circundava como um presépio abandonado, que só podia ser o mar. Passo ali muitas vezes, mas não recordo assim escuro e lento o mar, não o tom daquela maneira, entre pedaços de terra e cimento, como se fosse sempre a subir e subindo muito até lá poder chegar. Tento lembrar em quantas e tão diferentes circunstâncias passei ali daquela forma, ou semelhante, mas não posso. Lembro repentes, caras de pessoa, nomes, o corpo quase igual. O passo é outro, diz que ninguém anda duas vezes. E o traço dos montes mexe também com o das casas, não consigo. Eu não tinha visto assim o mar. E pude reconhecer também a cabeça de um homem, cabeça escura, baixa, a tarde encolhia-se já sobre a noite ou isso parecia. [...]

Texto completo na Enfermaria 6

6.6.16

Sobre SUPERTUBOS, por Víctor Gonçalves

[...] 8- É preciso “ver torto” e ler torto, são poemas em movimento, “mexem bastante”. Não nos levarão à “terra do nosso regresso”. Como podemos fiar-nos num verso que diz “sopra tão limpo cruel o fabuloso”? Mesmo com “pés gigantes e bronzeados”. Talvez as frases sirvam apenas de contraste ao “silêncio crepuscular”, o corpo é que tem de se bambolear à procura de um equilíbrio que evite uma e outra vez quedas na calçada, isto até chegar ao baloiçamento do barco (ou à biomecânica do ciclista em dia de montanha), mar a toda a volta, por cima e por baixo, esse mar infinito sem fronteiras que interrompam o viajante. [...] 

"Do vigor irremediável da presença nómada", texto de Víctor Gonçalves lido na apresentação de Supertubos | poemas 2005-2015, agora disponível na página web da Enfermaria 6: aqui