16.1.15

Muitos a falar

Querer-te no peito
uma constelação de barcos
e resolver depressa isto
falar limpo como o brilho

Torna porém a imagem
o corpo rodando lento no
soco luminoso de praia
este bração nos lumes

Rasgo valente mas extenuado
tu vens correndo e escrevia
deste lado a areia é muita
molhando num toque d’osso

Dás numa luz de corpo
resoluta e audaz que às vezes lembra
o encorpar a
bater de megafones marados

Cumprimento os amigos
gosto deles e antipatizo
colaboro
e revolvo dentro nas bizarrices

Amanhar depressa isto
falar tiro limpo
como brilho

De Onde fingimos dormir como nos campismos, Enfermaria 6, Lisboa, Novembro de 2014, p. 26. Ver versão digital do livro aqui.    

15.1.15

Folga

Ruça a roupa e o pulo não cresce
mas não parece depois baixar
se uma mão suspende o movimento
traça linho cómodo o recorte

Ela apanha do lado regenera
e quando senta quer aliviar
ela pára porque já está torta
bola retoma numa estrela igual

Risco esse risco e faço branco
num lugar do rolo e mais branco
porque o descanso é o aquece
fala e só fala decide e sacode  

E branco longe uma estrela igual
lá no recosto chegado do calor
e o braço visualiza em acontecimento
o talento do pulo maluca

Dentro duramos mais folgados
e mantemos até certa comodidade  
quando apouca a conversa distraímos 
a ocorrência feita dicção é selvagem e

Aquela rua lá na rua da guitarra
faz aragem de quando passamos
na maneira um dia de passarmos 
pisar é pisar não se vai por fora

Pois o mexer tem essa categoria
é de saltar o rijo bom nas pernas
falamos e tudo com muita força
deve ser do mexer e vai parecer 

Uma terra lembrada de nós
mas se alguém afinal avança
o entusiasmo é conservador
parecemos muita gente a falar

De Onde fingimos dormir como nos campismos, Enfermaria 6, Lisboa, Novembro de 2014, pp. 14-15. Ver versão digital do livro aqui.    

11.12.14

Da casa das conchas


Recorte da sessão de ontem na Casa de las Conchas de Salamanca, com Lina Rodríguez Cacho e João Guerreiro; assim se falou sobre Onde fingimos dormir como nos campismos; e quase à mesma hora, na web da Enfermaria 6, este texto de Rui Alberto Costa em que se mete no livro, monta lá a tenda, dispõe cadeiras, senta a malta, cumprimenta, faz o falar dos campismos:

9.12.14

Leitura para "Poema diz" (#OFDCNC)


Assim lê Rui Zink o poema assim intitulado, "Poema diz", o tom do livro, as maneiras das tendas (foto via perfil Facebook do autor), as coisas nos campismos. 

7.12.14

18.11.14

Onde fingimos dormir como nos campismos

Começa assim: "Generation sex is me, and you, and me". Voz e palavras de Neil Hannon à frente de The Divine Comedy num disco de 1998 já na altura chamado Fin de Siècle. Também começando, mais uma achega de Nuno Bragança que aqui se mete a desmanchar e confundir. Seguem-se as séries "Passagem", "Uso nas figuras", "Estrelas partidas", "Monte junto" e "Como nos campismos", 52 poemas nelas distribuídos, alguns deles publicados anteriormente na página web da Enfermaria 6 (coligidos alguns, entretanto, no Caderno 1) e no fascículo de Setembro de 2013 d'Os Fazedores de LetrasOnde fingimos dormir como nos campismos, edição Enfermaria 6 (2014), vem somar-se a um conjunto de livros e plaquettes de que constam: Poema em forma de nuvem (Gama, 2005), Masquerade (Sombra do Amor, 2006), Clave do mundo (Sombra do Amor, 2007), Entre o malandro e o trágico (Sombra do Amor, 2009), As junções (Artefacto, 2010), Buchas (Ed. autor, 2010), Folas (Ed. autor, 2011), Plato chico (Ed. autor, 2012), Parrillada (Ed. autor, 2012), Orla (Ed. autor, 2012), Pancartas (Ed. autor, 2012) e Uma pedra parecida (Do lado esquerdo, 2013). Aclimatando as coisas, e porque pedra muito vizinha, algumas palavras de Manuel Margarido sobre este último livro, e mais umas quantas de João Batista na revista Diverge. Sobre certa inclinação ao batuque, ao papel solto, e não muito longe, algumas observações de Henrique Manuel Bento Fialho que talvez venham agora a propósito (e estas também); trabalhando na junção, sobre o livro assim falado, estoutras palavras de Nuno Dempster, que também assim escreveu sobre um livro anterior, igualmente lido por Manuel Margarido. Dicção correctíssima, do mesmo modo, a de Jorge Afonso dizendo alguns poemas numa já muito antiga noite. Esta nota recente de Henrique M.B. Fialho também ajuda a situar as coisas, em tom de certo modo percorrido num outro apontamento de Nuno Dempster. No gostinho da polémica, já com uns anos, uma de mascarilhas, poesia e bacalhau à brás, também ali temperada.

Onde fingimos dormir como nos campismos
Enfermaria 6, Lisboa, Novembro de 2014

12.11.14

Javier Cercas, "El impostor"


Movendo as leis das fronteiras, no seco do texto, saco bruto da prosa, El impostor, de Javier Cercas (Literatura Random House, 2014). 

10.11.14

Eduardo Berti, "La mujer de Wakefield"


O tamanho da segunda vida, rua ao lado, corpo o outro, tão perto, contado por Eduardo Berti. A ler: La mujer de Wakefield, Tusquets, 1999. 

22.10.14

Uma ponte na praia, poema na Enfermaria 6

Um poema bem pode ser uma ponte na praia. Mais uma vez, entregue aos cuidados da Enfermaria 6, aqui. Entoar quando pedimos / nomes de constelações / bocados de terra favorável / poderemos ali sentar? Série completa, nesta ligação

23.9.14

Bolaños

Arrumo cadernos, apontamentos dispersos, sublinhados de leitura nos livros de Roberto Bolaño, marginalia, glosas. Reponho visualmente alguns dos volumes dispostos na estante, e a ordem é a seguinte:   

Amberes - Outubro 2009, Salamanca
2666 - Outubro 2009, Salamanca - Covilhã
Amuleto - Novembro 2009, Salamanca
Los detectives salvajes - Dezembro 2009, Salamanca - Peniche
Las putas asesinas - Janeiro 2010, Salamanca
Estrella distante - Fevereiro 2010, Salamanca
Entre paréntesis - Março 2010, Salamanca
Llamadas telefónicas - Abril 2010, Salamanca - Bilbao
Nocturno de Chile - Maio 2010, Salamanca
Tres - Junho 2010, Salamanca - Zamora
El Tercer Reich - Julho 2010, Salamanca
Los perros románticos - Julho 2010, Salamanca
El gaucho insufrible - Setembro 2010, Salamanca
Monsieur Pain - Outubro 2010, Salamanca - SudExpress Hendaye - Lisboa
La literatura nazi en America - Novembro 2010, Salamanca
La pista de hielo - Janeiro 2011, Salamanca
Los sinsabores del verdadero policía - Janeiro 2011, Salamanca
Una novelita lumpen - Fevereiro 2011, Salamanca
La universidad desconocida - ainda 
   
Ou mais ou menos isto, às vezes uns sobre os outros. De qualquer forma, o elenco não deve fugir muito à minha sintaxe pessoal de Bolaño: uma trajectória torta, toda ela póstuma e lutuosa, lendo cada livro a olhar para o lado, e evitando certas reverberações portuguesas (sim, traduções, comentários), mais não seja porque gosto de histórias, e que as suas palavras falem por si mesmas, e em si mesmas, se são capazes, e estas são. Soberanas e pobres, ruborizadas. Revejo as últimas páginas de 2666, com a Serra da Estrela ao alto; a profundíssima emoção num pequeno parágrafo de Amuleto, o de "estaban cantando"; uma tarde na piscina dividida com Udo Berger e os seus wargames; as últimas linhas de Pain, no comboio de volta a Espanha.  A porta de entrada nessa definitiva universidade desconhecida e do primeiro sol de toda a Península Ibérica, o de Blanes, Catalunha.  

Roberto Bolaño











   
           

5.8.14

Diários da Grandíssima

Série de crónicas sobre a 76ª Volta a Portugal em Bicicleta a acompanhar, diariamente, antes ou depois da etapa ou mesmo em corrida, na página facebook de La Biciteca - Portugal

7.7.14

Jenn Díaz, "Mujer sin hijo"


Mujer sin hijo, Jenn Díaz, Jot Down Books, Sevilla, 2013. Um dar à luz, dar luz, esse dá-me luz. Virginia Woolf dá o mote: "Uno no puede traer hijos a un mundo como este". E que já tinha saído, que já não estávamos juntos. 

6.7.14

"Estação 2012", de Henrique M.B. Fialho


Estação 2012, novo livro de Henrique Manuel Bento Fialho, em edição Mariposa Azual (2014). Vide mais informação e roteiro de poemas, aqui.  

3.7.14

O "Caderno 2" da Enfermaria 6


[Transcrevo da página da Enfermaria 6:]

Amadeu Baptista | Andreia C. Faria | Catarina Santiago Costa | César Rina | Daniel Francoy | Dirceu Villa | Duarte D. Braga | Emanuel Amorim | Fernando Guerreiro | Isabel Milhanas Machado | João Miguel Henriques | João Moita | José Manuel Teixeira da Silva | Luís Ene | Manuel A. Domingos | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Patrícia Lino | Paulo Kellerman | Paulo Rodrigues Ferreira | Raquel Nobre Guerra | Rui Almeida | Samuel Filipe | Tatiana Faia | Victor Gonçalves | Victor Heringer | György Petri / João Miguel Henriques et al (trad.) | Nick Laird / Hugo Pinto Santos (trad.) | Salvatore Quasimodo / João Barcelos Coles (trad.) | Cassandra Jordão 

Capa: João Alves Ferreira


Uma versão impressa deste livro pode ser comprada na Fyodor Books ou enviando-nos a sua encomenda para enfermariaseis@gmail.com.

A Enfermaria 6 é uma plataforma editorial sem fins lucrativo. Todo o dinheiro resultante da venda dos exemplares será usado para financiar futuras publicações.

26.6.14

Kayak

Tu dizes que imagine
a milhões de quilómetros
onde noutra terra o mar
encoste e tu vais estar

Onde água brinque e
pelos lados sai um kayak
vão dois longe vão os gajos
mas não chegam lá

Tornam navios à lota
apita como todos os dias
uma onda vem voltar
as pedras miúdas 


Uma pedra parecida, Do lado esquerdo, 2013. 

20.6.14

Um pouco acima da miséria


De Um pouco acima da miséria (XXIX Prémio de Poesia Cidade de Ourense, 2013) , novo livro de Amadeu Baptista, transcrevo poema publicado por Nuno Dempster no blog A Esquerda da Vírgula

IRENE PAPAS ENTOA VERSOS DESCONHECIDOS NO EPIDAURO AQUANDO DA INVASÃO ALEMÃ DA GRÉCIA

Venho com figuras de deuses no meu corpo
e estou a cantar. Na mão esquerda trago
uma camisa de linho e, na direita, uma bandeira
azul e a proa de um navio. Invoco os talismãs
propícios e sobre o promontório procuro a luz
de outrora e a que há-de vir. Eu e o meu povo
sabemos que desígnios transparecem
nos golpes que sofremos. 

19.6.14

Uma quadra

Mostrados os desenhos todos do barco 
canto um modo longe no embalo da vaga
saber onde fica onde inventar a praia
esse tal pau na quadra levantado

Salamanca, 19 de Janeiro de 2014  

3.6.14

Prosa del otoño en Gerona

El autor suspende su trabajo en el cuarto oscuro, los muchachos dejan de luchar, los faros de los coches se iluminan como tocados por un incendio. En la pantalla sólo veo unos labios que deletrean su momento Atlántida. 

Roberto Bolaño, La Universidad Desconocida, p. 268.

29.5.14

A lota continua (e uma antologia a fazer)

Um poema de Clave do mundo (Sombra do Amor - edições, 2007), recordado por Henrique Fialho no seu blogue, "Antologia do esquecimento", em série sobre poetas portugueses do Século XX. É aqui