HUGO MILHANAS MACHADO

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14.11.10

[estranhando] Barreiro Rocks 2010, o mapa sonoro em imagens, ou a fotografia de Vera Marmelo

Ty Segall















Nunca ouviste Ty Segall ao vivo. Digo mesmo: não conheço qualquer canção do grupo, uma linha melódica sequer, e se ouvisse Ty Segall eu não saberia estar a ouvir Ty Segall. Consideras, a propósito da colecção de fotografias de Vera Marmelo no Barreiro Rocks 2010: a coisa do meio, neste caso a fotografia da Vera, sinaliza, em príncípio, e pelo menos, duas situações, a que está de um lado e a que está do outro. Penso em locais. Salamanca, por exemplo, e o Barreiro. Um objecto entre o Barreiro e Salamanca, ou qualquer outro ponto do mundo. E se penso em mundo, no mundo todo, o seu coração deveria ser exactamente o Barreiro. O mundo à minha espera, donde vem qualquer coisa. Cheiros, imagens, toques, provocações, silêncios, disciplinas, coragens, amores. Neste caso, o Barreiro. A gente não está lá, mas a Vera Marmelo está. A Vera sabe pôr os sons à mostra, para que os possamos ver, percorrer, percutir. E, com algum cuidado, ouvir até cada um destes músculos. Basta seguir a ligação, e de passagem investigar outras colecções da fotógrafa.  

13.11.10

[estranhando] "La viuda del ciclista", Alejandra Pizarnik

Tarde de Outono numa cidade espanhola, roupas aconchegadas. Duas horas para ocupar no centro comercial, subir e descer escadas rolantes, separar e memorizar cheiros. Deve haver um livro por aí à espera, descansado, com um largo historial de invisibilidade e reserva, um livro por abrir. Digo isto mas deveria se calhar acrescentar: por abrir à minha maneira, normalmente ali pelo terceiro quarto do volume, em zona reveladora, outras vezes, é certo, talvez a maioria, em zona escusa, irreconhecível. Mas dizia: um livro entalado com diligência numa destas prateleiras, organizado num fazer de conta segundo familiaridade de naturezas, e deve ser estrangeiro. O autor deve ser estrangeiro, e sobretudo a língua. Estrangeira. Tem de ser de fora. Certo é que em nenhuma circunstância o devo procurar à altura dos olhos, e devo mesmo considerar uma eventual arrumação descuidada. Abro este, grosso, desta vez em zona menos avançada, a páginas 104-105. Título: "La viuda del ciclista". Alejandra Pizarnik, Prosa Completa, Barcelona, Lumen, 2009.