9.4.13

Nas sobras da pedra parecida, em Agosto de 2009

Olha um dia enamorei-me e atado
não tinha jeito nem alegria sequer
só nome só um passo agasalhado
meio verso de poemas onde o pôr
e ar de briga mas só se isso valer
olha é dia em que vais a todo o lado
chutas pedras enroladas namorar e
água chegar na perna da calça arregaçada
mas é o salto das crianças que reverbera
estão as imagens todas partidas
não tens mais que apanhar do chão
e atirar ao meio do mar
que as vozes levantam e vão com elas
olha vê lá tu cuidado não afrouxes
o braço engata o corpo que a mulher
abraça esta vez só esta vez
é insistir num refrão e depois esquecer
no ouvido ficando o mar português
atravessado por uma pedrita
olha um dia enamorei-me e ao lado
o mar continuava a namorar
de longe vinha o cheiro eram
dois ou três veleiros estrangeiros
mas não vinha dali o marulhar
nem tu do mar tornavas
nós aprendemos juntos a nadar
estão as imagens todas quebradas
e tu defronte a todo o lado
pra casa vai o coração enamorado
passou tudo tão pequerrucho tão depressa
os meses agora são uma merda


"Os meses agora são uma merda", As junções. Lisboa, Edições Artefacto, 2010, pp. 69-70. Explicação sobre as  ditas sobras no texto final de Uma pedra parecida, "Entre tanta gente aparecer".