29.1.13

Um fim no mundo e a música de Jessye Norman


A sequência é breve e particularmente difusa, por muito escassa em recordações que se digam fortes ou possam justificar a lembrança assim repentina que agora me ocorre. Sou eu a subir uma escada, só isto. E degraus de madeira desgastada, madeira velha, talvez perfumes de detergentes. Mas a escada lembra muitos amigos que tive numa escada parecida, há muitos anos, na rua em que todos nós vivíamos e que naquele tempo bem parecia a rua mais vasta e imensa de todo o mundo. Agora já não, e inclusivamente o trânsito é feito em sentido inverso, e só por isso é uma rua diferente, não é a nossa rua. O meu amigo Nuno ainda vive lá e pode contar tudo isto com maior acerto. De forma que a escada não é ou não quer ser uma escada qualquer, até porque estas coisas nunca nos ocorrem de forma desintencionada. Parece, digo parece a escada que eu conheci de miúdo e onde cresci como miúdo e depois adolescente, mas eu só vejo a madeira de três ou quatro degraus à minha frente, pouco mais, e é tudo o que consigo recordar.

A imagem é então composta nestes termos: subo uma escada, talvez a escada que dá à casa do meu amigo, mas na verdade, e se quero afinar a descrição do quadro, não estou a subir a escada, e não recordo sequer ter entrado no prédio, nem com que determinação. Encontro-me na escada, muito simplesmente, com os pés apoiados num intervalo de dois degraus, uma mania antiga que me tem custado ao longo dos anos muitos pares de calças, a perna esquerda por diante da direita. Só vejo isto, e vejo pouco, cada vez menos. Como se aquela escada não fosse uma escada de subir, ou eu não estivesse ali para subi-la. O meu corpo retraído e encostado a um corrimão. Intuo que subo ou subia a escada e a imagem começa a esbater-se numa mancha confusa de cores pastel, tons escuros, na qual não consigo isolar qualquer contorno ou corpo para além do meu. Mas sei que estou ali, que lá em cima tenho a casa do meu amigo ou outra casa, mas seguramente a casa do meu amigo. Não sei porque se me hesita o reconhecimento do lugar, da exacta escada em que me encontro e onde tantas vezes nos sentámos a traçar planos para um futuro que vinha antes do fim do milénio, quando os anos 90 eram gordos de imaginações.

Agora que penso nisto tento recordar as vezes que subi aquelas escadas em visitas mais recentes a Lisboa, e percebo que ficámos em tempos distintos, que já não as posso subir como fazia antigamente, que o mundo, o nosso mundo perdeu um pouco de volume e nós fizemos coisas também diferentes da gente.

E depois começo a ouvir a voz de Jessye Norman, que vai crescendo e impondo-se no ambiente do conjunto, até que por fim é tudo da música e só da música. Diz e canta as palavras de “Mon coeur s’ouvre a ta voix”, a voz não é clara e eu não entendo, mas vou com ela e subo naquele refrão que nunca mais acaba, respiro aquela pausa que vai durar para sempre. O som parece estragado e pode vir de qualquer uma das casas do edifício. Mas eu julgo que não, a música aparece comigo, vem ter comigo para conversar sobre as coisas, sobre qualquer coisa. De modo que lá estou eu, no meio da escada, cantando a ária de Sansão e Dalila com Jessye Norman, o braço direito acompanhando a melodia, fazendo as curvas da música no ar, e reparo que este braço não me pertence, que canto num corpo que pode ser todos os corpos. E então se calhar até acho que o meu fim do mundo podia ser assim.