5.1.13

Ruzena de Kundera

Em mais uma vela batendo portuguesa no Diario de Salamanca, edição de sexta-feira 4 de janeiro de 2013, primeira, a vela, portanto, do ano ainda entrando. Aqui. Em linha de leitura, "A Valsa do Adeus" de Milan Kundera.

[...] Ruzena depois já está numa praia onde se fala noutra língua. Está sozinha, e mais do que caminhar ao longo da orla, pernas bebidas à beira-mar, Ruzena vê dois metros ou um pouco mais ao lado o corpo que reconhece como seu, e vê-se passar com uma música em inglês que nunca ouviu, ou se calhar ouviu há já muitos anos, num recanto da infância ou no embalo lânguido de um sono. Ruzena caminha e Bertlef caminha, mas vão sozinhos, e vão-se cruzar agora. Bertlef vem do lado das pedras, onde a praia fecha na falésia, Ruzena caminha para lá, vê-se caminhar nesse sentido. Aproximam-se, vão fechando o espaço que ainda lhes separa os corpos. Cruzam-se. Não se olham sequer. Há crianças fazendo castelos de areia, adultos banhistas rindo e conversando. Ruzena caminha entre homens e mulheres, Bertlef também, e Frantisek e Klima, mais longe, todos eles caminham devagar à borda de um mar. Sozinhos, metidos neles mesmos, sorrindo todos. Sem ninguém, e no entanto ao lado de todo o mundo. [...]