22.12.12

Um fim no mundo

[...] E depois começo a ouvir a voz de Jessye Norman, que vai crescendo e impondo-se no ambiente do conjunto, até que por fim é tudo da música e só da música. Diz e canta as palavras de “Mon coeur s’ouvre a ta voix”, a voz não é clara e eu não entendo, mas vou com ela e subo naquele refrão que nunca mais acaba, respiro aquela pausa que vai durar para sempre. O som parece estragado e pode vir de qualquer uma das casas do edifício. Mas eu julgo que não, a música aparece comigo, vem ter comigo para conversar sobre as coisas, sobre qualquer coisa. De modo que lá estou eu, no meio da escada, cantando a ária de Sansão e Dalila com Jessye Norman, o braço direito acompanhando a melodia, fazendo as curvas da música no ar, e reparo que este braço não me pertence, que canto num corpo que pode ser todos os corpos. E então se calhar até acho que o meu fim do mundo podia ser assim. 

Recorte de "Um fim no mundo", na 'Vela portuguesa' do Diario de Salamanca, edição de 21 de Dezembro de 2012. Texto completo, aqui.