31.12.12

Dormir como nos campismos

Num tempo que não este, num tempo que ficou preso a instantes e encontros que eu se calhar julgava sem futuros, ou não pensava muito nisso, num tempo diferente deste, muito diferente e deslocado, estaria agora a caminho do campismo e da praia portuguesa, a praia quase mais ocidental de todo o continente europeu, franja da terra velha bem entrada no Atlântico. Seria, em todo caso, e só pode ser assim, um tempo bem diferente deste. Porém, e especialmente em dias levados por algum amigo que escreve e faz recordar, ou uma frase, uma fotografia, consigo retomar de forma imaginária o percurso que nos deixaria ali, à porta grande aberta do mar, posso dizer se é por aqui ou se vamos bem, posso até, com um pouco mais de vontade e a emoção toda metida, posso até fingir que estou lá.

E por isso quero lembrar-me da última vez que visitei aquele embalo do oceano na terra e soube, sem no entanto saber, que já não voltaria da mesma forma, com as mesmas disposições e coisas à espera, naquele momento em que algumas vidas se encontravam ali, daquela maneira e com aqueles feitios, ou nós outra vez e da mesma maneira. Lembrar como andei por ali, com projectos e fantasias ao alto, sem grande valentia mas, como acho que já disse antes, com toda a emoção metida, todo o entusiasmo nas brasas. Reparo agora que entusiasmo é uma palavra que tem surgido em quase todos estes textos da vela portuguesa. Tento então recordar esses últimos, aqueles últimos gestos lá no sítio. Não posso, não reúno a força que o envio requer, e inclusivamente me parece, agora que penso nisso, uma extrapolação inútil. Eu já não estou ali, posso ainda voltar, e parece-me claro que um dia vou mesmo voltar, se calhar amanhã, mas já não durmo como nos campismos. [...] 


De duas pedras, a verde e a vermelha, metidas como braços ou paus entre o mar e a praia. Em mais uma vela portuguesa do Diario de Salamanca, aqui.