14.10.13

"O mexer", poema a rodos

Sacudir é sacudir
lavando
ó tempo as tuas pirâmides
recosto do braço e madeira da castanha
fofa boina está molhada
no apoio da cadeira

Ó tempo as tuas pirâmides
falou assim quando eu lembro
chego à voz dificulto
vou agarrando e enfim
tenho essas impressões
que vai começar a escrever

E tu sabes tu encontras
aguça e é vermelho de lugar
uma barulha comoção que ver de lado é chefe
e acontece em muita coisa
quando começamos a trabalhar

Depois
things as they are continuavas
como escondendo barco de boca
are changed upon the blue guitar
faz Wallace Stevens no teu som
faz esse som meloso da gente
naqueles bocados ficar

O tempo as tuas pirâmides
enche longe como vela latina
engraçamos espessa a companhia
e isto tem força
mas vai reparar mais tarde
e é o balanço o vibrar da corda
a iniciativa no prazer
é o nariz

Artifício o efeito da bucha
nós calando à refeição
que o sossego é inteligente
pensamos nós
que desenvolvemos noutros anos e insistimos

Que repete a camisola
da República da Irlanda
troncos grossos na chuva
um jogo que foi num dia
e fina a movimentação
lateral o rosto que aparece
branquinhas rodelas do mar
engrossa jovem para falar
no planalto sucumbir de discursos

Mas quem era quem ficava?
agora vem batendo com força
um jogo de paus e mais gangas
o sabor marinho dos paus
quando fica a falar comigo
e teu rosto é mais pedra clara
balanço nos números

O divertimento um dia tivemos
e que agora dá para cantar

A família contada
e noite em que já não chove

Dizia tem força
que temos a letra parecida

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Nota 1: Este poema ir-se-á fazendo e desenvolvendo aos bocados, maneira de paciência, montagem e articulação. É um poema que continua, e que no gesto diz: o poema continua, ou bem mais simplesmente, poema continua. Quer por isso ensaiar, explorar, divertir anomalias. (A anomalia, princípio - detonante - estético bem notado por Henrique M.B. Fialho neste texto a propósito de As junções.) Forçar cartilagens, respirar delas, castigando carnes e significantes que pareçam carne. Como que aprendendo a começar, travesso, interessado na consistência da fibra. Penso na fibra, quando músculo e osso, solidez e fome, se confundem. (Abril de 2012)

Nota 2: O poema, que aqui aumentava, há coisa de um ano, mora agora em grupo ainda inédito que vai levar por título assim: Onde fingimos dormir como nos campismos. O gesto de publicação do livro não invalida, porém, que o poema por aqui se continue e desdobre em mais poema. Acrescento também que uma versão do texto foi recentemente publicada em folhetim de Os Fazedores de Letras