1.6.11

O meu nome

a propósito do Dia Mundial da Criança




A Maria tem uma caneta de feltro encarnada. Eram ao todo dez canetas, um conjunto que recebeu nas férias de Natal há alguns anos atrás, era então mais miúda. Lembra-se disso: que foi no final do ano, e que estava de férias. A Maria foi gastando as tintas das outras nove canetas, amarelas, azuis, verdes, laranjas. Fazia desenhos, oferecia alguns, contente, outros escondia, mas nunca utilizou a caneta de feltro encarnada. Foi crescendo, desinteressou-se dos desenhos, estudou outras coisas e começou a escrever. E depois deixou de escrever. Manteve ao longo dos anos aquela caneta, sem nunca lhe prestar demasiada importância. Mas levava-a consigo, salvava-a de mudanças e limpezas, conservando-lhe algumas lembranças: expressões faciais, tons de voz, determinadas frases. E hoje a Maria voltou a pensar na caneta de feltro encarnada, decidiu finalmente destapá-la e escrever qualquer coisa. O meu nome, disse. Vou escrever o meu nome, e vou ver escrever o meu nome a tinta encarnada, numa cor com quase dez anos. O meu nome transformado pelo tempo. Havia um papel em branco na mesinha da sala, ao lado de dois livros, sentou-se. Ia começar a escrever.