Nuno Dempster, K3. Lisboa, &etc, 2011.
[do blogue do autor, A Esquerda da Vírgula]
Embora eu tivesse recebido os primeiros exemplares do livro em 19 de Janeiro último, vindos da mão atenta de Vitor Silva Tavares, penso que por acaso de edição e seguramente da génese do texto poético, K3 sai para as livrarias amanhã, 3 Fevereiro, véspera de um cinquentenário. No dia 4 deste mesmo mês de 1961, há cinquenta anos portanto, estalava a guerra colonial em Angola. Menos de dois anos depois, em Janeiro de 1963, alastrou-se à então dita Guiné Portuguesa, onde estive como mobilizado entre 1968 e 1970, começando logo por ir parar ao K3, aquartelamento de temida fama, então abaixo do nível do solo. É da minha presença nessa guerra que o poema trata, segundo um plano cronológico, ocupando todas as 56 páginas de texto do livro.
[leitura de Henrique Manuel Bento Fialho]
Não sei se foi no próprio Wittgenstein, se no filme que Derek Jarman lhe dedicou, que um dia vi a experiência da guerra declarada como a única verdadeiramente elucidativa do sentido da vida. É provável que assim seja. Tratando-se de uma experiência que nos coloca no centro de uma situação-limite, a guerra apresenta-nos ao que enforma a existência do homem: do medo à esperança, passando pelo sentimento da insignificância que em tudo medra. A consciência de que o que existe pode, de um momento para o outro, desaparecer sem deixar rastro é, pois, a consciência da vida tal como ela é. Assim sendo, não admira que algumas das melhores obras literárias, cinematográficas, pictóricas que a história consagrou tenham a guerra como cenário ou objecto de reflexão. A poesia não escapa. Agora que se comemoram, salvo seja, 50 anos sobre o começo da guerra colonial portuguesa, voltamos a ter em verso ecos dessa experiência traumática. Para além dos poemas que Fernando Assis Pacheco consagrou ao tema, e que para mim continuam a ser os melhores, não há nada que se compare, no plano nacional, a K3 (&etc., Janeiro de 2011), o mais recente livro de Nuno Dempster.