18.11.10

SUNSET PARK













 
Eu tinha visto a sombra desde a janela do autocarro, e perdi o rosto e todo o corpo porque mantinha interesse na forma como a estrada se ia desenhando perto do rodado, vibrando, alastrando-se por toda a cidade e assim fazendo a cidade que conheço, da maneira que normalmente, enfim, a conheço. Eram exactamente duas sombras, recordo pouco depois ter avaliado, ou só reparei nessas duas sombras, massas escuras e paradas, que cruzavam a tira de alcatrão em que segurava a vista, e o autocarro até nem se deslocava a especial velocidade. Talvez abrandasse mesmo nessa parte do trajecto, seguramente uma curva, talvez um cruzamento, alguma passagem pedonal. O autocarro não chegou a deter-se, abrandou um pouco, e retomou marcha. Mas isso foi pelo fim da tarde, e agora que torno à esquina onda as vi se calhar porque não durmo, não me apetece ler e não faz frio, agora eu não as vejo.