26.11.10

O PELOTÃO #05: Gustav LARSSON [fotografia de Timm Kölln]


Tenho a história do circuito na vila, as 23 passagens pela linha de meta antes da definitiva, para o sprint em grupo pequeno de corredores, um grupo seleccionado na última das 23 ascenções ao topo de dois quilómetros e meio a 12,5% de pendente média. No prato grande, 52 dentes, e movendo coroas longas no carreto anterior. Um inferno. Mas a história é a seguinte. A cada passagem pela penúltima curva antes da recta da meta, lá estava, de braços cruzados sobre uma barreira de protecção, sorrindo com entusiasmo, incentivando-nos, a mais bonita rapariga do mundo. Uma figura humana que, desde a bicicleta inclinada a mais de 40 kph, parecia emprestar luz à estrada. Olhos desmesurados, claros como pérolas esmagadas e afundadas pelo sol. O cabelo, tão negro como o asfalto e mexido pelo vento, indicava a trajectória a tomar na curva. Cada vez mais justa. De volta a volta a minha bicicleta e o meu corpo mais próximos do seu, reduzindo tempos, com pressa de assumir de novo aquela penúltima curva e então suspender o seu curso, cristalizar para sempre a fracção de segundo em que escassos centímetros nos distavam. Como numa fotografia, mas perfeita. À vigésima terceira passagem deixei-me descair do grupo, quero passar isolado, mas devagar, ou mesmo deitar pé ao chão.      

Timm Kölln, The peloton. London, Rouleur, 2010.