8.10.10

"Entre o malandro e o trágico", lido por Manuel Margarido

Em 2009, Hugo Milhanas Machado publicou “Entre o Malandro e o Trágico”, depois de “Poema em Forma de Nuvem” (2005); Masquerade” (2006); “Clave do Mundo” (2007); “À cama com Portugal” (tríptico policopiado: 2009). O livro de que aqui se fala, tarde e a más horas, é certo, engloba um conjunto de poemas (25) que são ‘recuperados’ da produção destinada a “Clave do Mundo”. Não são sobras, porém. Formam um conjunto formal e tematicamente coeso e de contagiante alegria. Versos cadenciados, rápidos e de uma destreza fonética de pendor quase lúdico, na muito lúdica sintaxe deste autor. Que, da mesma forma aparentemente ligeira como elabora os seus poemas, ligeiras temáticas parece abordar: as peripécias da infância; os lugares do crescimento, por vezes cristalizados em curtos poemas de intensa expressividade; um jogo construtivo de quem, de novo aparentemente, se não leva a sério, ou pelo menos ao trabalho poético. As aparências enganam. E falando de Hugo Milhanas Machado, o engano é rotundo. A ligeireza é, na verdade, uma intensa e vibrante leveza. O que torna tudo muito diferente. Não percebo, de resto, por que razão há-de ser matéria poética mais universal e relevante, digamos, um vómito solitário nas escuras ruas de Lisboa após um cigarro, após um copo, após um desencontro amoroso… ou a Volta a França em Bicicleta. Mas esta aparente falta de pathos poético levou gente a achar que a coisa oscilava entre o hipócrita e o parvo. Talvez tenha sido a leveza (provavelmente insustentável) da poesia de Hugo Milhanas Machado que orientou a não inclusão do seu trabalho no incontornável e meritório “RESUMO – a poesia portuguesa em 2009″. Escolhas.