11.10.10

As minhas sílabas são os meus joelhos

Morille, Salamanca, Julho de 2010, edição oitava do PAN (Encuentro y festival de poesía y de las artes en el medio rural). Leitura apontada para o meio-dia, há que prever o trajecto com certa margem (algum furo, acidente), pequeno-almoço reforçado e manuscrito na mochila às costas, tinta vermelha, taurina: Libro de ruta: tu tour de force. Saída de Salamanca pela estrada de Vecinos, primeiro corte à esquerda em Aldeatejada a Las Veguillas e alguns quilómetros depois novo desvio à esquerda para Morille, forçando aqueles estupendos 800 metros e cinco cotovelos acima dos 15% de inclinação, Cuesta de la Varga, estrada rija, agarra, os poemas na mochila. As frases, eram frases manuscritas a vermelho e um refrão a dizer duas vezes: mis sílabas son mis rodillas / y mis rodillas son mis sílabas / pam pam pam. Prato pequeno de 39 dentes e um carreto de 20 e alguns, o último dente sobra ("limpinho", Tim Krabbé), cadência entusiasta, pam pam pam digo para mim, sol em riste, maillot aberto, amarelo França, pingo do queixo, valente pinta de poeta, sim senhor, pam pam pam, isto será giro. Uns dez mil metros depois Morille ainda desperta das tertúlias da noite anterior, alta festa. Deito mão ao bidon, água sem graça, uma fonte por perto, puedo?, si, es água potable. Espero, releio o texto, quero dizer de memória. O poeta A.G. estaciona o automóvel, conversamos, fala da sua Extremadura, recordo-lhe o poema de amor (o das folhas alfinetadas) ou de matrimónio, amigos de Lisboa. O amigo J., voluntarioso argentino, assinala a indumentária, sorri. Há poetas num café próximo, sentamos à sombra, sobretudo a bicicleta, devo cuidá-la, faz-se tempo. Coca-colas e cafés con leche. É hora, acomodamos lugares, a minha é a terceira intervenção. Mis sílabas son mis rodillas y mis rodillas son mis sílabas, pam pam pam. Está dito. Avanço à porta por entre os assistentes, encaixo os sapatos nos pedais, o capacete ajustado.   
- Amigos, sigo mi camino.
- Buen viaje, hijo. Ten cuidado.  
- Gracias mi señora.     

  

(Pedalando de volta a casa memorava uma favorita de Mário Mata, tão Lisboa, coisas giras.)